sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

28/12/2007

Algum lugar, 28 de Dezembro de 2007

Cara Pessoa Amiga,

Desculpe estar escrevendo estas cartas sem você nem me conhecer direito. Mas sabe quando você precisa de um ombro para desabafar? Pois é, aqui estou eu, com uma dor de cabeça horrível, escrevendo para alguém que mal conheço, que deprimente.
Quem me deu seu endereço foi o ..., um grande amigo meu. Antes que você se pergunte, estudamos juntos e te conheço de vista. Sabe aquele garoto, de cabelo desgrenhado, cara de poucos amigos, que sempre sentou no fundo e andava cercado de gente mal encarada? Não, não sou eu esse. Eu sou aquele garoto que você jamais percebeu que estava no colégio, o garoto o qual você vai olhar nas futuras fotos de turma e se perguntar, "Quem era esse cara?". Pois é, eu tenho um nome, Miguel. E eu tenho muitos pensamentos que se passam na minha cabeça (a começar, como eu fui dar um mole terrível de repetir de ano. Mas isso eu deixo para uma outra carta) .

Te escrevo porque eu necessito desesperadamente de um amigo, mas não um amigo que se pareça com os meus. Eu preciso de alguém que tenha a vida nos eixos, mas que não seja julgamental. Odeio pessoas julgamentais, e deve ser por isso que eu nunca me misturei com muitas pessoas. Se você é do tipo de pessoa que olha pros outros e pensa "porra, olha como esse cara é, ele é um perdido, ele deve ser um merda", faça o gentil favor de rasgar esta carta e esquecer que eu existo.

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Algum lugar, 28 de Dezembro de 2007

Cara Pessoa Amiga,

Desculpe-me pelo jeito que escrevi a outra carta. Como escrevi, estou com dor de cabeça, confuso, cheio de problemas. Não sei lidar com as pessoas, nem com a minha vida. Esta carta deve ter chegado junto com a outra, então o que eu disse sobre julgamentalismo vale aqui: por favor, se você não for uma pessoa que vá me compreender, pare por aqui.

Se você quer ler o que eu escrevi, favor fazê-lo de coração aberto:

O ano está acabando, e eu pressinto que o ano que vem vai ser uma merda. Meus pais descobriram todos os meus lances com maconha. Eu deveria acreditar no que eles viviam dizendo para mim. Não, nada sobre maconha. E não me arrependo, o que me mantém lúcido até agora é o meu cigarrinho, poder esquecer deste mundo, abstrair e viajar nos meus pensamentos. O que eu deveria ter acreditado é que a Internet não é segura, ah não mesmo. Eles entraram no computador um dia e eu larguei meu ICQ ligado, e eu recebi mensagens de um amigo meu, o Pedro (ele não se chama Pedro: não quero que você descubra quem ele é), perguntando se eu não precisava de mais uns 20 gramas pros meus cigarros. Fernando (ele também não se chama Fernando), meu pai, leu tudo e sacou na hora. Isso foi na véspera do Natal. Neste dia, de manhã, saí com Luísa (ela realmente se chama Luísa, é uma pessoa fantástica, linda, falo o nome dela para você buscar conhecê-la) e conversamos a respeito de coisas.

Coisas como os amigos em comum, a vida, o que andamos fazendo, e ela sabe dos meus problemas. Sabe de muitas coisas. Ela me enxerga como quem olha um copo d'água: vê a água, transparente, só que ela ainda faz mais e sabe que naquele copo d'água existem também impurezas. E ela conversou comigo sobre o meu novo vício. Não que eu tenha tido muitos. E o diálogo foi estranho, eu não sabia se ela queria o meu bem ou o meu mal. Ela sabe que eu não suporto a minha vida, que eu não suporto a situação lá em casa, que eu não tenho futuro, que minhas notas são medianas e que na verdade, no fundo, sou um grandesíssimo filho-da-puta por saber dessas coisas e gostar disso tudo no fim das contas.
Enfim, todo o díalogo teve um ar de estranheza, mas o que mexeu comigo foi algo que ela me perguntou:
"Miguel, com tantas cores no mundo, por que você sempre escolhe pintar o seu mundo de cinza?"
"Luísa, eu acho que quem deveria parar com a maconha é você", e levei um tabefe no braço. Ela é uma criançona, mas eu amo ela.
"É sério, você sempre faz as piores escolhas, quando eu sei que no fundo você é muito mais." nesse ponto, os olhos dela já estavam marejados. Ela voltou a me olhar e perguntou uma última vez: "Por que?" Eu sentí um ímpeto de abraçá-la naquela hora e beijá-la, mas eu me detive. Eu sei que ela não gosta de mim. Somos só amigos. E não quero arruinar nada. Mas eu passei os 20 minutos seguintes olhando ela nos olhos. Acho que foi melhor assim. Demos uma volta num parque próximo do meu prédio, e não toquei no assunto. Voltamos às futilidades, tomamos um sorvete e a vida parecia legal.

Até que Pedro me ligou para perguntar se eu tinha recebido a mensagem, e perguntando porque eu demorei a responder no ICQ. Daí me veio a cabeça que eu deixei o computador ligado. Merda de vício em internet, pensei. E corri para casa, sem nem me despedir de Luiza direito (isso deixou ela bolada comigo, até agora ela está assim por eu ter corrido sem dar satisfação nem nada, ela me trata como se fôssemos namoradinhos às vezes e sinceramente não sei o que acho disso) para encontrar meu pai vermelho de raiva. Se minha dor de cabeça permitisse, eu ia detalhar tudo. O tabefe na minha cara. O choro da minha mãe. Os gritos. Minha mãe tomando cápsulas e cápsulas de Lexotan. As portas batendo. Tudo o que eu quero detalhar agora foi o que meu pai disse:
"Por que, filho, com tantas escolhas no mundo, você faz as piores, quando você pode muito mais do que é?"
Às vezes eu acho que essa frase me persegue. O tempo todo. Será que eu também fiz uma escolha ruim em estar escrevendo pra uma pessoa completamente desconhecida sobre minha vida? Pelo amor de Deus, não responda. Prefiro achar que agora estou fazendo a coisa certa. Tipo uma terapia ou algo do gênero, embora eu não acredeite em terapias.
Eu estou me perdendo, não é? Eu sempre fico assim após beber. Não ligue pra minha incoerência. Deixa eu voltar pro que eu estava falando: no momento em que ele me disse isso, meu mundo parou por algumas horas. E enxerguei tudo em preto e branco até ele bater com a porta do quarto e conversar com a minha mãe sobre isso tudo. Meu coração bateu mais devagar, e tudo o que eu pude fazer foi me trancar no quarto também, ligar o som, abrir a minha Bíblia, puxar o cigarro que eu normalmente escondo lá dentro e fumar unzinho. Welcome to my Christmas.

Eu me sinto mal por ter estragado todas as festividades. Não houve troca de presentes esse dia, não houve ceia, meu pai deteve a minha mãe de ligar para todos os parentes dela (afinal, para quê ficar falando da nossa vida para os outros? Temos que cuidar da nossa!), e foi isso. Estamos envolvidos por um clima pesado até agora. Minha mãe está fumando mais cigarros do que nunca, e às vezes tenho vontade de provocar um certo caos, soltando algo sobre más influências, mas me controlo. Pego meu pai constantemente revirando as minhas coisas, mas não falo nada a respeito. Já houvi algo sobre Narcóticos Anônimos ontem, quando houve um jantar na casa do meu tio Jorge (que não se chama Jorge. Eu adoraria chamá-lo de "tio Filho-duma-puta, mas tiraria o ar de veracidade desta carta), e pensei por um instante ter sido uma referência direta pra mim, só que na verdade foi com um amigo do Rafael (não vou mais falar que ninguém se chama do jeito que eu escrevo aqui, que eu to meio de saco cheio) que entrou na onda do tabagismo. Bando de conservadores filhos-da-puta, todos são fumantes na minha família, e eles falam dos adolescentes fumantes como se isso fosse um crime, um desvio de moral. Hipócritas filhos duma puta.

Hoje já tomei café da manhã com meus pais, óbvio que com um clima pesado. Ninguém sabe direito o que dizer. Nem eu, pra ser sincero. E se eu soubesse, eu também não diria. Eu não sei lidar com as pessoas, eu iria falar asperezas, mostrar pro papai Fernando que não, não quero ser advogado, mostrar pra mamãe Estela que não, não vou entrar jamais pra uma faculdade. O que eu quero da vida? Não sei. Eu ainda vou repetir o 2º ano para descobrir. Se houver um 2º ano. To meio cansado de tudo e de todos. Não discuti com meus pais nem nada, mas estou meio confuso com tudo que está acontecendo. O lance dos meus pais descobrirem a maconha. A Luísa puta da vida comigo. E por que eu fui encher a cara hoje?

Ah, sim, eu falei pra meu pai que iria sair com o Pedro, e precisava conversar com ele, e levei outra bifa dele. Aquela mão pesada. Gritos. E portas esmurrando. E todo aquele teatro. Novamente portas trancadas. Acho que é assim que as coisas funcionam aqui em casa, ninguém sabe lidar com os problemas em diálogo, não me ensinaram assim. Aqui em casa a gente se tranca, não só dentro do quarto, a gente se tranca dentro da gente mesmo. E eu me tranquei no meu quarto, bebi uma garrafa de licor de menta (o meu favorito) e deitei. Agora que despertei, liguei para o ...., nosso amigo, e ele me indicou o seu endereço, como te disse. Aí você me pergunta, por que eu to escrevendo carta? Eu não tenho Orkut, não tenho MSN, tenho ICQ para falar em privacidade com o Pedro, com a Luísa e outros amigos que apresentarei depois. Não gosto de telefone. E não me sinto à vontade. Eu sei que escrevendo estas cartas, me poupa o trabalho de ter que me expor. Ter que olhar cara a cara pra você e dizer as minhas verdades. Como eu disse, aqui em casa a gente se tranca. E eu prefiro assim.

Obrigado por ler esta carta, se você chegou até aqui. Não aguardo respostas, porque eu não as procuro. Eu só quero um ouvido amigo mesmo. Ou olhos amigos, já que você não está me ouvindo de fato. Espero que um dia a gente possa se encontrar. Por enquanto, prefiro manter esse epistolário cinza contigo.

Abraços,
Miguel

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