Algum lugar, 29 de Dezembro de 2007
Amiga Ana (http://hodierna.blogspot.com),
Obrigado por responder às minhas cartas, e fico feliz que você as tenha lido até o final. Entendo o seu ponto de vista quanto a julgar os outros, e eu devo admitir que eu sou tão hipócrita quanto todos da minha família. Afinal, eu também não julgo?
Uma dica: desvincule-se logo da internet. É o pior dos vícios. Eu não entendo como alguém consegue perder horas do seu dia preso em frente a um monitor, quando tem tanta vida a ser vivida. Não sei se é porque foi criado em uma casa de ateus (com exceção da minha avó Fátima, que me deu uma bíblia de aniversário. Ela é muito católica, devota de São Miguel. Agora entende porque eu tenho um nome tão "legal"?), mas eu desenvolvi muito cedo a consciência de que tudo um dia vai acabar e que se eu não aproveitar o hoje, eu posso não ter tempo pra aproveitar o amanhã. Não que eu aproveite muito. Eu não sei se te contei, mas eu nunca namorei. Eu fiquei com pouquíssimas garotas na minha vida, e isso eu deixo para contar em outras cartas. Eu também não tenho muitos amigos. E eu não gosto de muitas coisas. Eu gosto de tocar violão. Gosto do meu quarto. Gosto do Pedro, da Luísa, gosto do Marcelo, do Leandro, da Elisa. Gosto de fumar maconha quando as coisas aqui em casa vão de mal a pior. Gosto da minha avó Fátima. E de escrever.
Principalmente de escrever, como você pode ver. Acho que a minha válvula de escape é a escrita. Escrever me faz esquecer da realidade, mesmo quando eu escrevo sobre a MINHA realidade. E falando em realidade, eu preciso parar de viajar (hoje estou sóbrio e não posso dar nenhuma desculpa).
As coisas ainda não amenizaram aqui em casa, e não sei se fico feliz ou triste. Por um lado eu amo os meus pais (merda de amor incondicional), só que por outro eu gosto de ver que não é só a minha vida que está de cabeça para baixo. Não é bom saber que todas as pessoas são humanas? Aqui em casa sempre houve uma cobrança de todas as partes para todas as partes de modo que todos parecêssemos perfeitos. Meu pai e seu emprego maravilhoso, minha mãe dona de casa, mas uma mulher dinâmica, sociável, talentosa. O filho... bem, esqueça, nunca me destaquei em nada.
Quando eu era pequeno fiz escolinha de futebol, sem bons resultados. Tentei judô, volei, karate, e nada. Eu não consigo praticar esportes que envolvam sociabilidade. Aliás, como eu insisto, não sei lidar com as pessoas. Elas que normalmente tentam lidar comigo, até perceberem que não vale a pena. Acho que a única coisa a qual sou grato a eles foi ter incentivado o hábito da leitura. Minha mãe passava muito tempo sozinha em casa, desde que a empresa pra qual ela trabalhava como secretária faliu. Então ela começou a ler muitos livros, e eu lia com ela. Acho que era um dos poucos momentos que nos entendíamos e eu achava que a vida valia a pena.
Hoje tive uma crise de nostalgia (culpa pelo meu comportamento, talvez?) e peguei um livrinho pra ler. Pequeno, sencilho, se chama Raul da Ferrugem Azul, da Ana Maria Machado. Já leu? Deveria. Fala de um garoto que um dia percebe que está todo embolorado de uma mancha azul , e nada tira estas manchas. Na verdade, as manchas são todos os sentimentos presos nele. A vontade de bater nos valentões do colégio, a vontade de falar palavrão, de ajudar os mais pobres, e todas as coisas que ele não conseguia fazer iam se acumulando na pele dele.
Há meses eu venho enxergando essa ferrugem em mim. Metaforicamente, é claro (exceto depois de fumar meu pileque: enxergo coisas até demais), mas eu sinto que tem tanta coisa presa que eu quero falar. E não consigo. Então hoje eu tirei o dia para desembolorar algumas coisas. Encontrei minha mãe na cozinha hoje, com o olhar lerdo, olhando pro horizonte. Eu sabia que ela tinha tomado alguma coisa. Lexotan, quem sabe. Bem, não importa... Eu senti uma vontade de pedir desculpas para minha mãe, embora eu não ache errado fumar; era mais um subterfúgio para não vê-la com os olhos vermelhos e a parte de baixo dos olhos roxa. É paradoxal isso que eu sinto, uma hora eu quero que meus pais morram e afundem em depressão, e que eu goste desse caos todo, mas no fundo eu sei que não deveria ser assim. Eu poderia ser indiferente. Poderia fumar maconha na frente deles. Oferecer, ironicamente, quem sabe? Arriscar levar uns tapas do meu pai. Ou ver minha mãe sofrer. Ao invés disso, eu cheguei para minha mãe e abracei ela.
Foi um abraço quase etéreo, porque eu sabia que minha mãe não estava ali. Eu mal sentia o corpo dela. E aí veio a pior parte:
Ela desvencilhou do meu abraço. E ainda disse:
"Me solta, Miguel Antônio."
Ela nunca me chama de Miguel Antônio.
A minha vontade foi de bater a porta na cara dela, como pede o protocolo, mas eu estava com muito peso no coração e bater portas não ia melhorar porra nenhuma. Eu resolvi sair e liguei pro Pedro e pro Marcelo. Marcelo é primo de Pedro. Ele não fuma maconha, não tem nada a ver com drogas e é um cara bem diferente do Pedro. O Pedro tem um jeitão mais na dele, e só fala o necessário. O Marcelo é aquele cara que fala de tudo, tudo. Fala tudo e fala demais. Mas não é o tipo de pessoa que você implora para calar a boca, ou para ter um câncer na garganta e ficar mudo. Ele meio que alegra o ambiente quando ninguém mais sabe o que dizer e fica um silêncio constrangedor. Aliás, ele é muito fã de um filme, chamado Pulp Fiction (eu não ligo), e tem um diálogo em que a mulher olha nos olhos do cara, e fala algo sobre como é importante quando duas pessoas se gostam, porque o silêncio que fica entre as duas pessoas é algo especial e sagrado. Ou eu devo estar confundindo os filmes e fatos. Isso têm acontecido com frequência.
Estava de rumo para a casa do Pedro, mas antes me encontrei com o Marcelo, que é praticamente meu vizinho de quarteirão, e pegamos o ônibus juntos. Marcelo falou sobre o Flamengo. Sobre a morte de Benazir Bhutto. Sobre os peitos de uma garota em pé no ônibus. Sobre o que ele faria com aqueles peitos. Eu ri. E eu falei um pouco da minha situação.
"Ah, cara, relaxa. Eles já estavam putos porque você repetiu o ano, e esse lance da maconha realmente deve ter fudido a porra toda pro seu lado, mas dá uns meses e tudo volta pros eixos."
O Marcelo é o meu pai.
"Ah, não sei. Eu já tô nos meus eixos..." e fiquei olhando pra cara do Marcelo, pra ver o quanto ele ia acreditar nisso. Ele riu, sencilha e despreocupadamente. Voltamos a falar do nosso Natal, dos presentes que (não) recebemos, e saltamos no ponto que dava quase que em frente à casa do Pedro. Era uma dessas casas emergentes, muito bonitas, em um condomínio fechado. Hoje o Pedro estava sozinho em casa, e até passou na minha cabeça fumar unzinho com ele. O Pedro fica bem falante quando ele viaja, mas ao invés disso chegamos lá, ficamos falando besteiras, paguei o que eu devia ao Pedro (e não era pouco, mas como somos amigos, ele me deu um desconto), e ele já estava enrolando um cigarro, quando o Marcelo deteve ele:
"Cara, deixa isso pra quando o Miguel não tiver aqui. Deu merda na casa dele."
"Ah, eu sei disso. Mas ele não está na casa dele. E ele precisa relaxar."
"Bem, eu acho que por ora eu posso ficar sem fumar", disse meio forçadamente. Eu queria fumar, mas eu obedeci à sugestão do Marcelo. Se ele dissesse para eu enfiar a cabeça na privada, eu acho que eu faria. Ele tem aquela voz que só os pais autoritários conseguem ter. Então, ao invés de fumar unzinho, ligamos a televisão, bebemos cerveja (mas não o suficiente pra ficarmos bêbados), e ficamos vendo um filme. O impressionante não era o filme em si (odeio esses filmes cults, mas o Pedro se amarra, então ele pôs um tal de Para Sempre Lília pra ver. Confuso demais) , mas a televisão. 39 polegadas, plasma, fixada numa parede do quarto dele, que era verde. Consegue imaginar isso? Um vendedor de maconha com um quarto de parede verde-criança?
O quarto do Pedro é enorme e eu poderia ficar dias detalhando ele. Mas só vou falar que o Pedro ficou deitado na cama dele, o Marcelo puxou a cama de baixo para assistir o filme e eu fiquei sentado em uma poltrona em formato de ovo. E me encolhi ali dentro, como um pintinho com medo do mundo. Eu sabia que quando eu voltasse para casa, as coisas ainda estariam uma merda. Minha mãe ainda estaria se drogando com Lexotan, meu pai ainda estaria fuçando minhas coisas, batendo as portas, dando com a mão em mim, mas pelo menos ali no quarto do Pedro, com meus amigos, me senti protegido. E até esqueci que o filme era meio triste, porque o Marcelo ficava fazendo comentários o tempo todo. Pessoas normais iriam mandar ele para a puta que o pariu, mas eu gostava disso. O Marcelo era um cara legal, não sei como tem gente que não gosta dele.
Voltei para a casa às 17h, e quando virei a chave do meu apartamento para entrar, me espantei. Fui farejado pelo meu pai, quase como se ele procurasse um cheiro que denunciasse o que eu fiz a tarde inteira.
"Aonde você esteve, seu maconheiro de merda?" Ele fedia a álcool.
"Eu fui dar uma volta com o Marcelo, ficamos vendo televisão na casa dele e jogamos Play 2."
"Esse Marcelo, não é um drogado que nem aquele seu outro amigo, ou é?"
"Não, pai, não." Me controlei para mentir e dizer que o Marcelo era um drogado da pior espécie, que ele curtia cheirar pó, injetar heroína e essas coisas que nenhum dos meus amigos faz, mas daí veio aquela merda de amor incondicional e senti vontade de ser honesto com meu pai. Ou semi-honesto, porque se eu dissesse que passei a tarde com o Pedro, eu ia ser ralado vivo.
Ele soltou um grunhido, e foi pra cozinha, beber mais, eu presumo. Me deitei na minha cama, liguei o som e pus um CD do Kid Abelha. Outra coisa que eu herdei da minha mãe. Adormeci com o CD rolando e, ao acordar, adivinha o que estava acontecendo no meu quarto?
"Pai, por que você está virando meus pertences?" Isso foi falado com a voz mais irônica possível. Mas não recebi nenhuma resposta. Ao invés disso, ele falou:
"Prepare suas malas, vamos passar a virada do ano em Camamboré."
Não, Camamboré não! Já ouviu falar dessa cidade? Pois é, se você ouvisse eu parava de escrever cartas na mesma hora e ia achar que era alguma armação de familiares pro meu lado. O lugar parece um limbo familiar, cheio de parentes chatos. O lugar parece ter 46ºC o ano todo. E o ar é quente. Sabe a atmosfera típica dos domingos, aquele ar quente, pesado, onde os segundos se arrastam e todo mundo fica recheado de apatia, tédio e irritação? Acredite, o ar de Camamboré é pior. E vou passar a virada do ano lá. O que significa que talvez eu não possa escrever cartas com freqüência. Dia 3 eu devo estar de volta.
Até lá, eu desejo um 2008 melhor para você. Meu ano foi estranho, e eu não pressinto que o meu 2008 vá ser diferente. Não sou supersticioso, mas na dúvida já decidi duas coisas:
1) Vou me vestir todo de preto na virada do ano.
Não é porque preto traz mudança, que nada. É porque minha mãe ficaria doidinha me vendo assim, com um visual mais punk na bagagem. Talvez ela associasse com um estereótipo maconheiro, quem sabe?
2) Ano que vem eu vou viver da maneira que me der no saco.
Cansei de guardar para mim as ferrugens azuis.
Carinhosamente, e até ano que vem,
Miguel
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