quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

02/01/2008

Algum lugar, 02 de Janeiro de 2008

Amiga Ana,

Espero que você receba esta carta antes do dia 7. Camamboré é um lugar bem fim de mundo, e eu não confio tanto nas correspondências alheias. A vida inteira acostumado a mandar cartas no velho correio que fica em frente ao tal parque próximo da minha casa fez com que eu me familiarizasse com cada carteiro, cada caixa de correspondência que havia lá, cada selo.

Como foi a sua virada de ano? Para ser sincero, toda aquela minha rebeldia passou aqui em Camamboré. Não, eu não virei um conformista. Sim, eu odeio este lugar. Sim, os dias se passam como se todo dia fosse um longo e quente Domingo. Pelo menos eu tenho mais tempo para pensar. Afinal, não é para isso que Deus criou os Domingos?

Meu pai fez as malas para mim antes de viajarmos, talvez para se certificar que eu não ia levar os meus cigarros. Por alguma razão estranha (aliás, não é uma razão tão estranha, mas reze para eu me lembrar de escrevê-la no fim da carta), eu não senti vontade de protestar, causar confusão ou me rebelar. Isso é uma das poucas coisas que me dá prazer aqui em casa, e ainda sim contive todos os meus impulsos. (Cadê o Raul da Ferrugem Azul?) Aceitei veementemente. Eu não sei por qual razão. Eu tirei o dia 30 para esquecer que eu vivo e me trancar dentro de mim. Minha mãe estava empolgada para fazer a viagem, rever o tio Cláudio, vovó Fátima, os meus primos, a tia Ofélia, e todas as pessoas que não me despertam mais do que uma mera apatia (com exceção da vovó Fátima, eu vejo nela uma pessoa que vale a pena). Eu estava empolgado para ver vovó Fátima e o Manuel. Ele é o irmão que a minha mãe esquece que tem. Ou é o tio que eu me lembro que tenho. não sei.

Durante a viagem de carro, procurei dormir. Eu adoro dormir em viagens com a família, poupa eu ter que me envolver com eles. E eu tive um sonho engraçado. Sonhei com uma porta de aço no meio do nada. Era um portão imenso, pesado, grosso. Eu estava em frente a ele, querendo abrí-la, só que ele não cedia, por mais que eu o empurrasse ou esmurrasse. E meu pai e minha mãe passaram por mim, e não me viram. Abriram a porta com a maior facilidade e entraram na porta. Ao abrir a porta, havia uma luz muito brilhante do outro lado. Eles a fecharam antes que eu pudesse entrar. De repente, Luísa aparece, como se não houvesse ninguém ao redor e abre a porta. Elisa aparece em seguida. Marcelo e Pedro também. E todas as pessoas que eu conheço. E elas me abandonam em frente à porta de aço, e eu desesperado querendo entrar. Acordei sobressaltado, mas já em Camamboré. Chegando lá, houve aquela troca de amabilidades. Depois que falei com todos fui deitar no quarto de hospedes, alegando que estava passando mal. Fiquei pensando nas coisas boas de 2007, se é que houveram.

Se lembra que eu te contei que fiquei com pouquíssimas garotas? Elisa é uma delas. Nos conhecemos há muito tempo atrás, em uma festa de aniversário, já nem lembro. Ela sempre foi uma garota de atitude. Foi a primeira garota com quem eu fiquei, e isso foi quando eu tinha 14 anos. E temos um relacionamento muito engraçado. Nós ficamos, brigamos, não nos falamos, não dou a mínima, ela volta, nós ficamos, ad infinitum. Até que no 1º ano ela e eu conhecemos o Marcelo. E o Marcelo apresentou a ela um tal de Rafael, Ricardo, Roberto, algum nome assim. Eles ficaram, e deram certo, e namoraram. Ela perdeu a virgindade com ele, perdeu a paciência com ele pouco tempo depois e ela voltou a falar comigo. Mas só como amigos mesmo. Eu gosto dela demais como pessoa, mas ela é instável demais. Nunca teria dado certo. Além do mais, eu sou muito apático quanto aos outros.

E tem a Luísa... ela é linda, linda. Por dentro e por fora também. Especialmente por fora. Cabelos castanho-escuros, olhos cor-de-mel, bem morena, alta, e quanto ao corpo dela.. sem muitos detalhes, antes que você pense que eu sou um destes punheteiros ninfomaníacos. Basta saber que se você a visse, iria desejá-la na hora. Somando isso, ela ainda é atenciosa, carinhosa, engraçada, e eu sinto que ela gosta de mim. Só que eu tento controlar o que eu sinto, porque sinto medo de que aconteça o que aconteceu com a Elisa.

Uma coisa legal de 2007 foi eu ter descoberto a maconha. Foi através do Marcelo. Ele parou de fumar, porém não resistiu à tentação de fumar um cigarro quando a Juliana, sua ex, deu um pé na bunda dele e o trocou por uma garota que ela conheceu numa festa. Nessa ocasião, estávamos eu, Marcelo, Pedro e um cara cujo nome nunca consigo me lembrar, algo com W ou V, Válter? Wilson? Enfim, estávamos em um bar lotado de pessoas, de dois andares, com uma sacada lá em cima para os fumantes. O Pedro tirou o papelzinho; o Valter Wilson, a erva. Pedro enrolou, prendeu, acendeu e deu pro Marcelo.
"Hoje é de graça, priminho." Marcelo deu um trago com muito gosto, e ofereceu para mim. E eu aceitei, porque eu fico extremamente sugestionável com a voz dele. É quase uma coisa autoritária. E eu fumei, e tossi bastante. Tinha um gosto horrível.
"É pra prender, e não soltar a fumaça." E eu prendi. E eu me senti muito relaxado, quase como se eu estivesse flutuando. E depois eu comecei a rir de tudo que o Wanderlei Valério falava. Desde esse dia (acho que foi no fim de Fevereiro, porque eu estava quase voltando às aulas) eu apareço na casa do Pedro periodicamente para comprar maconha. Eu sempre quis saber com quem o Pedro consegue, e eu tenho certeza que é com o Wellington Venceslau.

No meio de todos estes devaneios que tive, eu dormi. E acordei com o tio Manuel do meu lado. Ele é esquizofrênico e fala sozinho. Eu gosto dele por ele não ser como todas as pessoas. Todo mundo mente e se contradiz. Todo mundo é hipócrita, é julgador (eu mesmo o sou, andei percebendo. Eu julgo os outros e odeio julgamentalismo) e ele é simplesmente ele mesmo. Fala o que vêm à cabeça e não se envergonha de ser louco. Resistiu a todos os tratamentos. Vive sob os tratos da vovó Fátima e sua aposentadoria, que não é muita, e é feliz. Ele estava com um estilete, uma lixa e um toco de madeira, lixando-a e cortando em alguns pedaços.

"Sabe, pensei que vocês nunca iriam vir aqui de novo."
"Mas tio, estivemos aqui não faz nem um mês."
"A sua mãe não gosta de mim, não é?"
"Nem um pouco, mas tudo bem. Eu não gosto dela também."
Ele me acertou com uma tocada na cabeça.
"Você ficou 9 meses dentro dela, merecia dá-la o respeito necessário. Não acha, filho?" E virou pra um retrato de uma criança que tinha na cabeceira do quarto. Ele jurava que era o filho falecido dele. Em algumas noites, você podia flagrá-lo tendo conversas profundas com a criança, quase como se estivesse educando-a. (Na verdade, a criança do porta-retratos era simplesmente a foto de papelão que veio com a moldura e vovó se esqueceu de tirar, ou deixou lá quando viu que o filho dela arranjou um amigo. Vai saber.)
"E então, Miguel, me diz uma coisa."
"Hm?"
"Você não era assim. Assim, assim, assim...." e ele ficou repetindo a palavra várias vezes. Uma vez ele me contou que quando gostava do som das palavras, ficava repetindo para sentir o gosto também. Entendeu porque eu gosto tanto dele? Ele é absolutamente pirado!
"...assim. Triste."
"Mas eu não sou triste, tenho uma vida boa."
"Soube que você repetiu de ano. O Figueirinha nunca repetiu de ano." (Figueirinha é o "filho dele)
"Bom pro Figueirinha, ele vai se tornar um cara incrível que nem você, tio. Mas eu tô feliz da mesma maneira, tenho meus amigos que me amam."
"Você tem algum objetivo pra sua vida, Figueirinha?" A voz dele ficou sombria, e por um segundo tive medo dele. Ele me encarou como se eu fosse o filho dele.
"Mas que pergunta, claro que tenho!"
"E qual é?"
Houve um silêncio constrangedor.
"Viu o que eu disse? Você não faz nada, não conversa com ninguém, não faz tantos amigos como fazia quando era pequeno, e tem esse desprezo até pelos seus pais que tanto te amam. Alguma vez você já pensou que poderia ter depressão, Figueirinha?"
"Mas é claro que n...", já ia gritar, quando eu vi que ele voltou a conversar com a foto. Por um instante, achei que era comigo. Que idéia ridícula, eu ter depressão.

Ele passou as próximas duas horas do meu lado conversando sobre a situação em Camamboré, onde todo vizinho da gente e todo vizinho dos vizinhos e os vizinhos dos vizinhos dos vizinhos etc. são algum parente em 3º grau meu. Aparentemente Vanessa deitou com Mateus, aquele Mateus, só que o Mateus estava namorando Natália e a mãe de Natália é irmã da mãe de Vanessa e rolou aquele muquifo. O tio Manuel fala como uma criança quando se trata em relatar histórias pra mim. Ele fala coisas como "... e daí Xandinha (mãe da Natália) ficou tão zangada, mas tão zangada que sacou uma espada a laser, ou era um rolo de massa?" Nem se eu fosse criança eu ia achar isso incrível e engraçado, mas como era o tio Manuel e você via sinceridade nos olhos dele, eu me sentia na obrigação de rir.

No fim do papo, ele já tinha terminado a escultura dele. Era uma tartaruga.
"Fique com isso, Figueirinha. É pra você se lembrar que às vezes a gente tem que meter a cabeça fora do casco, ok?"
E observei ele sair do quarto pra ir pra varanda da casa jogar milho pras galinhas no quintal.

Tomei café da tarde com a tia Ofélia e meus primos. Foi chato. O dia seguinte também não foi muito diferente, só que as palavras do tio Manuel ficaram na minha cabeça. E tentei parecer mais alegre e sorrir mais um pouco. Eu queria conversar com meus pais, só que ainda tinha aquele clima desagradável entre a gente. Então decidi chamar os primos (não todos, chamei o Nelson e o Thiago, que são os menos insuportáveis) para dar uma volta pela cidadola. Andei pelas ruas poeirentas, ouvi os casos deles sobre trabalharem na prefeitura do lado da cidade, sobre a moto que eles compraram, sobre as garotas com quem eles saíram e achei tudo aquilo um porre vindo deles, mas me forcei a rir e concordar das histórias deles. Tentei ficar sociável, mas vi que isso exigia um esforço muito grande. Daí a gente foi jogar futebol com os amigos deles num campo de areia que tem em um parquinho no centro de Camamboré (que é onde ficam os bares, as lojas e a parte menos ferrada do lugar), e eu fiquei como goleiro. Deixei escapar todas as bolas, praticamente. Eu e meus primos trocamos amabilidades ("Seu merda!", "Viadinho, chuta que nem homem!") e voltamos para almoçar.

À tarde, procurei dormir, mas não consegui. Fui pro quarto dos meus pais e tentei ser simpático com eles.
"Tempo bom, né?"
Eles se entreolharam com uma cara de que não sabiam do que eu estava falando.
"Pai, foi mal por tudo aquilo."
"Tá, tudo bem. Já esqueci. Tudo perdoado. Te amo, filho."

Essa última parte foi mentira, admito. Eu queria muito ter dito algo para meus pais, mas eu não sentia arrependimento ou vontade. Em vez disso, foi conversar um pouco mais com tio Manuel, que estava me contando algo sobre um periquito roxo que visitava ele toda noite, e chegou a noite. Comemos um pouco a ceia, e houve toda aquela palhaçada de família que finge se amar. Tomei meu banho e pus a roupa, que não era preta como eu queria que fosse. Meus pais me conhecem e deviam saber que eu ia fazer algo do gênero. Em vez disso, vesti verde e cinza. Verde é esperança, e cinza... bem, eu me lembrei da Luísa. Era a menor homenagem que eu poderia ter feito à ela.

Fogos à parte, o Ano Novo virou de uma maneira interessante. Todos na varanda poeirenta da casa da vovó Fátima, com banquinhos de praia, garrafas de champagne, banho de espuma, comilança de uva e estas coisas. Eu não liguei para ninguém, o sinal em Camamboré é uma merda.

E quanto a ontem? Bem, ontem foi um saco. O primeiro dia do ano foi uma espécie de festa à piscina, com churrasco, pagode e essas coisas que não combinam comigo. Eu joguei xadrez com o tio Manuel (ele é incrivelmente bom nisso), e depois fui desesperado atrás da minha Bíblia, até me lembrar que eu não arrumei a minha mala e não levei ela comigo. Merda, preciso me lembrar de guardar os cigarros em outros lugares.

Não sei o que vai ser do meu dia hoje, mas seu sei que eu devo ficar aqui até o dia 14. Se você receber esta carta em tempos, saiba que eu vou ficar sem escrever por mais um tempo e peço desculpas. Aqui não há muita privacidade (nesse meio tempo que estou escrevendo, os meus primos entraram aqui e quase pegaram a carta, fora que os Correios aqui são a uma van de distância e meia hora da "minha" casa), mas saiba que nestes 12 dias sem carta vou sentir saudades e tudo estará bem na minha vida (mentira, eu não aguento mais este inferno de cidade, todos os meus dias estarão recheados de tédio).

E desculpe por não comentar sobre a sua carta anterior, tenho medo de que alguém aqui leia e acho que no momento sua vida só me interessa. Mas logo logo escrevei para você, ok?

Abraços,
Miguel B.

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